Dramaturgia off

Comentário adicionado 31-07-2020 por Lara Duarte: Esse “projeto de dramaturgia” foi escrito depois da primeira reunião que participei. Ouvi sobre as ideias, as referências e cheguei num caminho possível para dramaturgia. Esse texto era uma espécie de roteiro para apresentar o percurso. Um texto de apoio para a fala.

 

Dimensão do real. Dimensão do teatro. Dimensão narrativa

 

A primeira cena pode apresentar algo como “o teatro naufraga”

O texto falado pode ser: “nesse exato momento a água já corrompeu a fiação, cada refletor vai apagar lentamente, um cheiro de queimado, talvez um curto circuito. As cadeiras flutuando, as roupas da plateia sendo encharcadas, etc.” O texto da cena não vai ser esse que coloquei em aspas, é só um exemplo tosco pra ilustrar.

Para a primeira cena penso em descrever a ambientação do espaço real sendo submergido. Descrever as zonas fóticas, afóticas, etc… Ambientar a cidade submersa, os vestígios de civilização.

Criar o ambiente naufragado até localizar as três criaturas hibrido Mulher-Bicho-do-Mar, no coração de uma baleia (que pode ser um dinossauro numa outra era, uma nave espacial, um dragão imaginado por uma criança, um fusca) Como chegar no fusca? No capô do fusca? Numa grande buceta.

A Descrição caminha do concreto ao fantasioso.

 

Dimensão dramática

3 Mulheres-Bicho bolando um plano terrorista.

Plano para invadir o castelo

Plano para sequestrar a rainha*

Plano para roubar o castelo (comida, ouro)

 

O plano será sempre interrompido por um vestígio de civilização que passa por elas, boiando através da correnteza do mar (ou através da batida do coração da baleia que são 9 por minuto)

O “vestígio de civilização” suscita uma interrupção do plano. Pode ser um vestido de noiva, o teoria king kong, a constituição do brasil (podemos pensar juntas em quais são esses vestígios e o que cada um deles propõe tematicamente)

Cada objeto inaugura uma nova situação entre as 3 mulher-bicho desviando da situação “plano terrorista” que será desenvolvida ao longo de toda a peça.

E esse plano pode ir ficando cada vez mais mirabolante e inacreditável, assim como a situação política do país.

 

*A Rainha = Cleópatra ou Vênus Wilendorf, outro poder-beleza. Mas de alguma forma essa rainha representa a norma e o poder em seus meios tradicionais. Ser uma rainhA já adensa discursivamente a peça, reflete sobre as nossas próprias contradições.
As situações podem ser improvisadas por todas nós. Sempre tendo em vista que existe um plano para ser posto em prática. Até que uma das mulheres bicho rompe o ciclo de tentativa X inércia

 

Retomada da dimensão do real
Através do discurso. Um poderoso discurso. Um discurso de luta que está sendo dito no coração de uma baleia imaginária, na zona abissal. Uma espécie de chamamento. Fala coletivizada.

 

 

 

narrativo: TEATRO AFUNDANDO
               |
CIDADE SUBMERSA
               |
dramático: 3 MULHERES-BICHO   –   PLANO TERRORISTA
                                                                              |
                                                                   VESTÍGIOS DE CIVILIZAÇÃO (interrupção)
                 ___________________________ |
                 |
DISCURSO DE INVASÃO
(elementos do real)

Dramaturgia off

Agosto de 2019
Estrutura 

 

Prólogo – apresentando versões da história. Diferentes linguagens. Diferentes pontos de vista sobre o fim. Começamos pelo fim.   

Mergulho – (É um suicídio?)

Espuma de civilização – Corpo da criança. Quero chorar mas não consigo.

solidão = baleia azul. Tentar chamar. Quem são as baleias?
baleias = cachalote, pré-histórica, destrói. Ou um leviatã?

fragmentos de humanidade sendo vistos.

Amor
Dilacerar
toda humanidade começou na água
Capô. Centro da terra. Coração da criança.

Esguicho – leva pra cima

(Recomeço)

 

Fevereiro de 2020
Estrutura

 

Prólogo – Aula explicação sobre o coração e suas doenças

 

Pulo – Três sobreviventes do apocalipse que se atiraram ao mar, a cada adensamento do mergulho elas se encontram numa camada diferente.

Primeira camada: Espuma Civilizatória – Todos os descartes jogados no mar, tecnologias ultrapassadas, restos de civilização, excesso de informação, palavra enquanto jorro verborrágico.

Segunda camada: Violências – Memórias sobre a vida humana. Violências de gênero. Relatos de experiências. Violências praticadas.

Terceira camada: Desmembramento – A resolução não é pacifica. O corpo que se amputa. A morte do eu.

Quarta camada: Apaixonamento – Rever o corpo humano e se surpreender com as suas múltiplas possibilidades de existência. Se reapaixonar pelo ser humano.

Quinta camada: Coração da terra – Os três corpos cavam em direção ao centro da terra. Tem-se um sistema circulatório exposto e coletivizado.’

 

17 de dezembro de 2019

Fragmentos sobre o coração

 

A associação com as emoções é completamente arbitraria. Outras culturas consideravam o fígado o regente, há quem se apoie no estomago como órgão emotivo, conheço casais apaixonados que dedicam as tripas num ato de devoção.

É ele que bombeia, atiça, faz a coisa toda circular. Se eu ao menos pudesse controlar suas batidas. Mas ele vem galopando, frenético, autoritário, medindo o ritmo dos meu fluidos desde de quando eu nem era gente.
Esse tornar-se gente é um exercício tão delicado, porque costuma tender pro universal. E essa coisa de “gente universal” é tão absurda como dizer que sinto algo por você com todo o meu coração. E se esse algo a gente nomeia de amor, a experiência do universo fica insignificante e magnifica.

É ele quem bombeia, atiça, faz a coisa toda circular. Qualquer dor do umbigo pra cima pode ser considerada infarto. E era justamente o umbigo a fronteira que dividia os sentimentos elevados dos rebaixados… Eu sempre fui tão baixa. Não corro o risco de morrer subitamente com dor nos dentes, irradiando por todo o meu braço esquerdo… Isso só acontece quando as suas artérias estão chateadíssimas com seu modo operante, e resolvem reter um coagulo de sangue ou um pouco de gordura, impedindo qualquer acesso as emoções. Aí o sujeito fica duro. Atinge uma espécie de sabedoria mineral, um instinto de ficar parado que só quem viu toda a história do genoma humano é capaz de alcançar. Conheço mulheres arrependidas que oram pelo espessamento do sangue quando são tomadas por uma súbita paixão, as mesmas que coam café na calcinha, e passam mel numa fotografia impressa. Mas não é sobre isso. Sobre o coração-romântico, nem sobre o passional, não importa se contrai ou relaxa, é sempre um TUM TUM TUM TUM ou num outro vocabulário SISTOLE DIASTOLE SISTOLE DIASTOLE. Eu não sinto a necessidade de me assegurar em quatro pilares: A tricúspide, a pulmonar, a mitral, e a aórtica, cada uma com o seu cada qual. Válvulas fibrosas gerando o cosmos do batimento cardíaco. É tudo muito bem organizado: sempre dos átrios pros ventrículos, e depois de lá, descamba na aorta e nas artérias pulmonares. Porque quando o coração contrai, quando bate aquela vontade de… Aquela solidão, o medo da morte, a impotência, a injustiça, a falta de grana, de credo, de tesão, duas válvulas se abrem para que o sangue seja empurrado pro pulmão ou pro restante corpo, enquanto as outras duas se fecham impedindo a passagem do sangue pela direção errada. É ele que bombeia, atiça, faz a coisa toda circular. É importante dizer que tanto as válvulas de entrada, como as de saída, se fecham em perfeita sincronia a cada batimento. E tudo isso sem muito esforço, sem que você, sujeito queira. Independente se você concorda ou não o coração segue seu pulso. SISTOLE DIASTOLE SISTOLE DIASTOLE. Inclusive, “concordar” é con + cordis, ou seja, com o coração. Quando duas pessoas concordam é porque seus corações estão juntos. Agora “discordar”, dis (separar) + cordis. É se afastar do coração do outro. O que pode ser doloroso e ao mesmo tempo vital. Ou apenas um hábito. Um hábito burguês, diga-se de passagem. Mas não é sobre isso. Eu já sei de cor toda a perversidade da estrutura e me recordo da sensação de necrose toda vez que penso em me mover. Daí eu sinto as minhas artérias estreitas, o fino fluxo que me mantem. E as minhas medicinas, a idade, a hipertensão, o tabagismo, e uma dieta muito rica… Tudo isso bloqueia, entope, restringe, atrofia, encolhe, inflama, não permite que a coisa circule.

Começa com uma inflamação na camada interna das artérias. E vai indo, vai fechando tudo. O fechamento, o ensimesmamento pode gerar um acidente cardiovascular com sequelas gravíssimas. Perda da capacidade cognitiva, lentidão, perda de memória, imobilidade, atrofia, demência, dor.

Posso facilmente fazer este símbolo com as mãos e ser extremamente amorosa ou irônica. Temos esse significante talvez por sua semelhança com uma bunda, seios, testículos, pêssegos, folhas de hera, flores. Temos também a representação MENOR DO QUÊ e TRÊS ou ainda S seguido do número dois. O naipe de copas representava o clero no sistema feudal, daí pro coração de Maria e o amor de Cristo pela humanidade, foi um pulo. Posso também apontar pra alguém e tocar na parte superior-esquerda do meu tórax fazendo com que o alvo do meu gesto se sinta querido, amado, bem quisto. Não quero me alongar, mas na musicografia brasileira é possível contar uma infinidade de aparições do termo em questão.

 

“meu coração é vermelho” …

“coração bobo, coração bola, coração balão” …

“hoje contei pras paredes, coisas do meu coração”

“coração para que se apaixonou, por alguém que nunca te amou”

 

Etc. Uma infinidade. Mas não é sobre isso.

 

O coração funciona como uma espécie de Estado, redistribuindo, equiparando os nutrientes que vão deixar o sujeito de pé. O coração funciona como uma espécie de mãe, nutrindo, pressionando, dizendo: Vai Vai Vai Vai. Mas na maioria do casos contemporâneos a irrigação é seletiva, é mapeada, é historicamente selecionada. Fisiologicamente há quem viva e há quem morra por mera questão de vascularização. De acesso. É ele que bombeia, atiça, faz a coisa toda circular. E a gente não pode parar. Não vamos parar. Agora meu coração deve estar a um ritmo médio de 72 batidas por minuto, e com um cálculo matemático simples é possível prever o número de 104 mil batidas por dia, 38 milhões por ano e algo em torno de 2,5 bilhões de pulsações ao longo de uma vida. Obviamente depende do quanto essa vida durou. Tem-se casos de arritmia, morte súbita, parada total, fraquejamento, aceleração. Também é muito comum o assassinato, a chacina, o genocídio, a morte sistemática. Mas ele continua, SISTOLE DIASTOLE SISTOLE DIASTOLE.
Eu esqueci de tomar a minha medicação, um gosto metálico na boca.

 

SISTOLE DIASTOLE SISTOLE DIASTOLE.

 

É sobre isso. Não é? Sobre continuar

 

Anotações de ensaio pós leitura com as atrizes

 

PARA DESENVOLVER

– morte – rituais fúnebres
– coração de outros bichos – comparação
-coração da terra – corpo planeta.

Dramaturgia off

Outubro de 2019
Pré pulo + Espuma Civilizatória

 

Três corpos armados. Sangue. Vestígios de guerra.
Abandonam pouco a pouco suas defesas e ataques.
Dão as mãos
E
Pulam
Em direção ao mar.

 

Durante a queda

….


Meu coração pode parar a qualquer momento
E o seu?

Vamos mergulhar. Digo fugir. Não não. Enfrentar. Vamos enfrentar. Agora não tem mais volta. Será que vai doer?

Uma aliança e o medo da morte
O talho no pescoço do bicho
Uma canção da infância, as mãos enrugadas da velhice
Agora não tem mais volta, a gente combinou de pular se sobrevivesse… Já tô sentindo o cheiro do mar.

Não olhem pra baixo, prendem o ar
Somos três combatentes de guerra afogadas no próprio sangue. Três corpos em apneia descendo fundo no oceano. Três mulheres mergulhando na própria pele.

Se pularmos juntas? Quem afunda primeiro?

Água entrando nos meus pulmões
Meu fascínio por baleias
Sempre gostei de ver gente dormindo

Nunca sei se estou viva ou morta
Estamos fugindo?

Não.
Não posso tocar nela. Um travesseiro separa os nossos corpos.

Meu coração tá rasgando, 120 batimentos por min.

Mãe?

Agora não tem mais volta, a ponta dos meus pés tá tocando a água.
A gravidade pode mudar? E o país?

Tenho um tipo de loucura. Não interessa.

Primeira camada: Espuma civilizatória.

Sempre achei o conceito de civilização uma verdadeira barbárie. Um atraso ao desenvolvimento do planeta. Fora um ou outro invento, a humanidade me impressiona muito pouco. Vamos concordar que a roda em comparação a… A colonização, por exemplo, não é lá essas coisas.
Tomei o meu Selozok como de costume… É um betabloqueador qualquer que eu passei a tomar depois do infarto e por curiosidade resolvi ler a bula… Se aquelas informações são importantes porque letras tão pequenas? Fui salva da ignorância, da cegueira absoluta, pelos meu óculos, que provavelmente possui algum tipo de locomoção já que nunca o encontro quando preciso.
Mas ali eu estava: Com quatro pares de olhos decifrando códigos impressos.
Uma blusa fazendo às vezes de prótese da minha própria pele.
Um copo com água, substituindo a minha mão em concha com muito mais eficiência.
Beber água e ler uma bula só foi possível com a mais refinada das tecnologias. E todas essas tecnologias estão aqui, boiando no mar… Agora eu olho pra todos esses descartes, esses pedaços boiando, essas ex coisas e sinto uma… Uma vontade de chorar…

Essa mesma humanidade das guerras, da desigualdade, da ascensão fascista, cria imensos braços, imensas línguas e uma visão aguçadíssima que vê a superfície das estrelas e a divisão dos núcleos dos átomos  e unhas de muitas espécies e peles… Tudo boiando aqui nessa espuma, espuma de prótese, espuma, espuma de corpo, minha unha é faca, é bala, é garfo, é arado, minha boca é microfone, é telefone, meu ouvido, estetoscópio, gravador, meus pés são rodas, motores, carros, cavalos, aviões, celulares, minhas mãos são colher, guindaste, travesseiro.
E tá tudo aqui.
Tudo boiando no mar. Ferrugem. Carcaça. Reinvenção.

Mas somos todos muito civilizados. Dominamos saberes. Colunas eretas, somos bípedes, intelectuais… Depois do incidente com o meu coração eu adquiri um súbito interesse por gramatica. Flor do lácio indomada.
A grafia correta é enfarto com E ou infarto com I? Ou enfarte, terminando em E…
Tudo indica uma lesão causada pela parada da circulação arterial, bem como qualquer tipo de obstrução ou bloqueio. Em suma, um coração preguiçoso, frouxo, meio assim… Mas também indica o estado de quem está farto.
Por exemplo: Tô sentindo enfarte por ter comido muita feijoada.
Nada a ver com o miocárdio. A não ser a frequência com que se come feijão e miúdos. De qualquer maneira, infarctu, entupimento, obstrução, bloqueio, empanturramento, inchação, enfartação, enfartamento. O coração não anda lá muito bem…

Se é uma coisa tão importante porque tão pequeno? Atrofiado. Ferrugem. Carcaça. Reinvenção. Meu coração é micro-ondas, telescópio, aparelho sonoro, sonífero, saleiro em formato de bicho.
Tudo boiando aqui nessa espuma, espuma de prótese, espuma, espuma de corpo, onda de civilização. Meu corpo é histórico, é histérico, metafisico, místico, monstruoso. Eu não sei muito bem pra que servem esses botões, nem essas válvulas, essas engrenagens com esses fios, fios de fibra óptica enrolados num disquete, boiando ao lado de um pen-drive enfiado no buraco de um vinil, junto às antenas de um satélite… Pra que serve isso mesmo?

Não toquem! Não toquem em nada disso. Pode ser perigoso. A mão é hábil demais e adora fazer coisas. As próteses de mão já suprimiram essa vontade que a gente tinha de fazer coisas com as mãos de polegar opositor. Por isso não toquem. As mãos são pura âncora no mundo físico, pura tentação de nostalgia… Na dúvida melhor amputar, ficaremos mais seguras… As amputações podem ser inclusive muito prazerosas.
Quiromancia nunca mais.

São 60 batimentos por segundo. Socorro! Tem alguém aí?
Eu tô afundando.

Por tanto tempo temi que invadissem a minha casa e tomassem o que é meu. O que é da minha família. O que me pertence e é meu por direito.
Minha posse, as escrituras, minha assinatura, meus dados bancários, meu código genético. Não é que eu não queira dividir, mas se eu não me defender vou ficar sem nada. E nada é muito pior do que tudo… Tudo não. Mas assim, ter alguma coisa pra chamar de meu. É meu. Isso aqui é meu. Está no meu domínio, cumpre as minhas ordens. Só que não tem mais ninguém aqui… Socorro!

São 30 batimentos!

O coração de uma baleia soa tão alto que é possível ouvir os seus batimentos a três quilômetros de distância. Um coração enorme. Gigante. Caberíamos todos ali dentro.
Se eu me concentrar quase posso ouvir.

10 batimentos.

RECORDAR: Do latim “re-cordis”, voltar a passar pelo coração. Cor. Corpo. Coragem. Coração. Onda. Espuma de prótese. Onda. Resto de civilização. E quantas outras civilizações já naufragaram? Todos os tesouros submarinos, os mapas que levam a uma ilha submersa, os corpos humanos afogados por fronteiras inventadas.

5 batimentos

A baleia hertz 52 é a única da sua espécie a cantar nessa frequência. Através do canto as baleias se comunicam, planejam rotas, vivem em comunidade.

4
Mas nenhuma delas consegue ouvir a hertz 52.
3
Ela é a baleia mais solitária do mundo.
2
E segue cantando, sozinha
1

 

Outubro de 2019
Pré pulo + Espuma Civilizatória

 

Três corpos armados. Sangue. Vestígios de guerra.
Abandonam pouco a pouco suas defesas e ataques.
Dão as mãos
E
Pulam
Em direção ao mar.

 

Durante a queda

….


Meu coração pode parar a qualquer momento
E o seu?

Vamos mergulhar. Digo fugir. Não não. Enfrentar. Vamos enfrentar. Agora não tem mais volta. Será que vai doer?

Uma aliança e o medo da morte
O talho no pescoço do bicho
Uma canção da infância, as mãos enrugadas da velhice
Agora não tem mais volta, a gente combinou de pular se sobrevivesse… Já tô sentindo o cheiro do mar.

Não olhem pra baixo, prendem o ar
Somos três combatentes de guerra afogadas no próprio sangue. Três corpos em apneia descendo fundo no oceano. Três mulheres mergulhando na própria pele.

Se pularmos juntas? Quem afunda primeiro?

Água entrando nos meus pulmões
Meu fascínio por baleias
Sempre gostei de ver gente dormindo

Nunca sei se estou viva ou morta
Estamos fugindo?

Não.
Não posso tocar nela. Um travesseiro separa os nossos corpos.

Meu coração tá rasgando, 120 batimentos por min.

Mãe?

Agora não tem mais volta, a ponta dos meus pés tá tocando a água.
A gravidade pode mudar? E o país?

Tenho um tipo de loucura. Não interessa.

Dramaturgia off

Primeira camada: Espuma civilizatória.

Sempre achei o conceito de civilização uma verdadeira barbárie. Um atraso ao desenvolvimento do planeta. Fora um ou outro invento, a humanidade me impressiona muito pouco. Vamos concordar que a roda em comparação a… A colonização, por exemplo, não é lá essas coisas. 

Tomei o meu Selozok como de costume… É um betabloqueador qualquer que eu passei a tomar depois do infarto e por curiosidade resolvi ler a bula… Se aquelas informações são importantes porque letras tão pequenas? Fui salva da ignorância, da cegueira absoluta, pelos meu óculos, que provavelmente possui algum tipo de locomoção já que nunca o encontro quando preciso.
Mas ali eu estava: Com quatro pares de olhos decifrando códigos impressos.Uma blusa fazendo às vezes de prótese da minha própria pele.
Um copo com água, substituindo a minha mão em concha com muito mais eficiência.
Beber água e ler uma bula só foi possível com a mais refinada das tecnologias. E todas essas tecnologias estão aqui, boiando no mar… Agora eu olho pra todos esses descartes, esses pedaços boiando, essas ex coisas e sinto uma… Uma vontade de chorar…

 

Essa mesma humanidade das guerras, da desigualdade, da ascensão fascista, cria imensos braços, imensas línguas e uma visão aguçadíssima que vê a superfície das estrelas e a divisão dos núcleos dos átomos  e unhas de muitas espécies e peles… Tudo boiando aqui nessa espuma, espuma de prótese, espuma, espuma de corpo, minha unha é faca, é bala, é garfo, é arado, minha boca é microfone, é telefone, meu ouvido, estetoscópio, gravador, meus pés são rodas, motores, carros, cavalos, aviões, celulares, minhas mãos são colher, guindaste, travesseiro.
E tá tudo aqui.
Tudo boiando no mar. Ferrugem. Carcaça. Reinvenção.

 

Mas somos todos muito civilizados. Dominamos saberes. Colunas eretas, somos bípedes, intelectuais… Depois do incidente com o meu coração eu adquiri um súbito interesse por gramatica. Flor do lácio indomada.
A grafia correta é enfarto com E ou infarto com I? Ou enfarte, terminando em E…
Tudo indica uma lesão causada pela parada da circulação arterial, bem como qualquer tipo de obstrução ou bloqueio. Em suma, um coração preguiçoso, frouxo, meio assim… Mas também indica o estado de quem está farto.
Por exemplo: Tô sentindo enfarte por ter comido muita feijoada.
Nada a ver com o miocárdio. A não ser a frequência com que se come feijão e miúdos. De qualquer maneira, infarctu, entupimento, obstrução, bloqueio, empanturramento, inchação, enfartação, enfartamento. O coração não anda lá muito bem…

 

Se é uma coisa tão importante porque tão pequeno? Atrofiado. Ferrugem. Carcaça. Reinvenção. Meu coração é micro-ondas, telescópio, aparelho sonoro, sonífero, saleiro em formato de bicho.
Tudo boiando aqui nessa espuma, espuma de prótese, espuma, espuma de corpo, onda de civilização. Meu corpo é histórico, é histérico, metafisico, místico, monstruoso. Eu não sei muito bem pra que servem esses botões, nem essas válvulas, essas engrenagens com esses fios, fios de fibra óptica enrolados num disquete, boiando ao lado de um pen-drive enfiado no buraco de um vinil, junto às antenas de um satélite… Pra que serve isso mesmo?

 

Não toquem! Não toquem em nada disso. Pode ser perigoso. A mão é hábil demais e adora fazer coisas. As próteses de mão já suprimiram essa vontade que a gente tinha de fazer coisas com as mãos de polegar opositor. Por isso não toquem. As mãos são pura âncora no mundo físico, pura tentação de nostalgia… Na dúvida melhor amputar, ficaremos mais seguras… As amputações podem ser inclusive muito prazerosas.
Quiromancia nunca mais.

 

São 60 batimentos por segundo. Socorro! Tem alguém aí?
Eu tô afundando.

 

Por tanto tempo temi que invadissem a minha casa e tomassem o que é meu. O que é da minha família. O que me pertence e é meu por direito.
Minha posse, as escrituras, minha assinatura, meus dados bancários, meu código genético. Não é que eu não queira dividir, mas se eu não me defender vou ficar sem nada. E nada é muito pior do que tudo… Tudo não. Mas assim, ter alguma coisa pra chamar de meu. É meu. Isso aqui é meu. Está no meu domínio, cumpre as minhas ordens. Só que não tem mais ninguém aqui… Socorro!

 

São 30 batimentos!

 

O coração de uma baleia soa tão alto que é possível ouvir os seus batimentos a três quilômetros de distância. Um coração enorme. Gigante. Caberíamos todos ali dentro.
Se eu me concentrar quase posso ouvir.

 

10 batimentos.

 

RECORDAR: Do latim “re-cordis”, voltar a passar pelo coração. Cor. Corpo. Coragem. Coração. Onda. Espuma de prótese. Onda. Resto de civilização. E quantas outras civilizações já naufragaram? Todos os tesouros submarinos, os mapas que levam a uma ilha submersa, os corpos humanos afogados por fronteiras inventadas.

 

5 batimentos

 

A baleia hertz 52 é a única da sua espécie a cantar nessa frequência. Através do canto as baleias se comunicam, planejam rotas, vivem em comunidade.

 

4
Mas nenhuma delas consegue ouvir a hertz 52.
3
Ela é a baleia mais solitária do mundo.
2
E segue cantando, sozinha
1

Ápice de gestos e falação

O que é aquilo ali boiando?
É um casco de cavalo!
De camelo
De besta.
Égua grande

Não é de equino.

É uma criança. Não toquem. Pode ser perigoso.
As mãos podem levar diretamente a algum tipo de enfarte

Ela parece inchada.

Não.

Ela tá morta?

Cuidado.

Mas a gente não deveria chorar?

….

Eu
Não
Consigo.

Não sei como é que faz

Tenta.

Assim?

Não.

Tá tudo duro dentro de mim, o sangue nas minhas veias está endurecido, impedindo qualquer acesso ao coração. Não tenho vascularização. Não existe sangue pra bombear… Não quero mais enxergar, tô dura.

Chora!

Não consigo.

Como algo tão pequeno pode ser tão pesado?

Cuidado

Com o que?

Com o peso!

Mas é uma criança

A gente

Afundando

Agosto de 2019
Pré pulo + camada dilaceramento

Pré-mergulho

Nós vamos pular.
Pular, quer dizer, mergulhar.
Digo fugir. Não não. Enfrentar.
Nós vamos!

Se pularmos todos juntos? Quem afunda primeiro?

Vamos afundar juntos, fiquem tranquilos. Ao contrário do que vocês estão pensando isso não é um espetáculo sobre o fim, como tantas obras primas que se apresentam hoje.

Somos três terroristas suicidas em alto mar.
Três combatentes de guerra afogadas no próprio sangue.
Três corpos em apneia descendo fundo no oceano.

Respirem fundo. Todos juntos. Preencham seus pulmões de ar. A última inspiração da humanidade.

Somos três criaturas marinhas habitando um fusca naufragado
Três mulheres mergulhando na própria pele
Três peixes morando no coração de uma baleia

Não acredito em apocalipse. Estávamos animadas, era mais sobre um meio, um começo. Era uma peça sobre construção, uma opereta positiva sobre os tempos melhores.

Prendam o ar. A G O R A .

Inspiração e salto

Uma canção da infância

Barulho do fogo, uma floresta.

Folhas secas

Água enchendo meus pulmões

Medo da morte

Meu fascínio por baleias

Meu coração pode parar a qualquer momento

120 batimentos por min

A gravidade pode mudar? E o país?

Tenho um tipo de loucura. Não interessa.

 

Dramaturgia off

Segunda camada: Dilaceramento ou Leviatã

Já se passaram quantas horas desde que a gente mergulhou?

Passaram-se anos? Eras?
Gosto daqui…

Eu até já comi uma Cachalote. A maior baleia dentada. Colossal. Fiquei deslumbrada. Apavorada. Antes de ser devorada, ela me deu uma dentada diretamente no rosto. Trocou a minha cara de lugar.

Eu dancei com uma Beluga. A baleia que canta sem parar. Um amor. Aquela voz parecia uma espécie de máquina no tempo, linda, mas eu não aprendi a coreografia.

Eu beijei uma Jubarte. Elas se encontram sempre com uma outra fêmea. Nadam juntas, saltam, dividem alimento. Uma espécie de melhor amiga ou de namorada. Trocamos caricias na despedida.

Eu amei uma Azul. O maior bicho que já existiu no nosso planeta.
Sua língua tem o peso de um elefante
O seu coração é do tamanho de um fusca
Suas artérias são tão largas que poderíamos caminhar por elas tranquilamente.

Eu. Eu até já SOU uma baleia.

Não. Não é.

Sou sim.

Não…

Sou.

Você tá confundindo as coisas

Mas, meu coração é de baleia

Não. Não é.

Uma baleia que morre fora d´água pode explodir. Os órgãos são muito grandes, a camada de gordura extensa, não tem por onde se decompor e ela explode… Você entendeu? EX-PLO-DE, é uma chuva de órgãos gigantes, nadando na atmosfera.

E daí? Eu sou uma baleia.

Então me ensina a cantar?

Existe uma baleia pré-histórica, um leviatã, que me mostrou o fundo do fundo, lá onde o sol nem chega, e tá tudo tão escuro que as criaturas emitem luz dos próprios corpos.

Me ensina a cantar, por favor, me ensina.

O leviatã me perguntou: Onde está a sua voz? De onde ela vem? Do que é feita? De qual substância? É aguda, é vermelha, é sua? Que tipo de eco você é capaz de fazer?

Me ensina a cantar?

E o leviatã me disse: Desapareça, morra, vire outra coisa, vire um monte de pedaços, corte-se, destrua-se, aniquile-se, isso aí que você é já não é mais possível. Abra, suma, vire outra coisa, construa outra coisa, deixe outra coisa existir, isso já não é possível, saia daí, saia dessa merda, desmembre, assassine, destrua, destrua, destrua essa bomba, vou te matar, pelo seu bem vou te matar, vou acabar com tudo, forçar o fim, o fim do assassinato por fome, tiro, ódio. Se mova. Culpa, impotência e passividade são doenças. Eu vou te afogar, te largar no meio do nada, no meio do mar.
E o mais importante, destrua o centro da sua cabeça, destrua essas ideias assassinas, destrua sua cabeça cruel e minúscula, destrua essa pequenez, atire, esfaqueie sua cabeça, corte essa cabeça e crie outra cabeça, construa uma cabeça coração. Um coração maior, mais quente, mais vivo, com mais sangue. Construa um coração-baleia. Pouco a pouco. O ancestral da baleia veio da terra. Reaprendemos a respirar na água. Até hoje existe no meu esqueleto o que sobrou das quatro patas. Quatro formas de contar a história. Quatro provas gritantes que somos muito diferentes. Mas se você for capaz de tocar em mim com outras mãos… Invente outra coisa, isso aí não é mais possível, fatie e coma essa merda de pensamento humano, nos encontraremos novamente, e tomara que não seja possível te reconhecer.

Espera.

Eu vou cantar pra você, espera.
Só não sei exatamente onde foi parar a minha boca. Nem o que é isso vibrando nas minhas cordas vocais.
Minha coluna com vertebras dispersas pelos mares do mundo.
Minha bacia no indico
Meus cabelos no pacífico
A pele no atlântico
Minha voz no ártico.

Minhas memórias, estão vazando uma a uma. Boiando no fundo do mar. E à medida que elas vazam pelos meus buracos, eu perco completamente o sentido do “meu”.
Do buraco dos olhos – Meus planos de futuro, a bula do remédio, os óculos de grau, a paisagem da velhice… A primeira palavra que eu aprendi a dizer tá saindo pelo meu olho.
Da cavidade do ouvido – Uma canção de ninar, a sinfonia do trânsito, o gemido da mulher mais linda do mundo.
Do nariz – As memórias de gosto. Tô desaprendendo quais comidas me agradam, quais pescoços me seduzem, qual a minha inclinação política, que tipo de inteligência me molha.

Do buraco da boca – Tá vazando uma sereia, o dragão de São Jorge, uma personalidade satélite, saiu a minha genealogia, a linha do tempo, o meu medo da morte.
Do bico do meu peito tá vazando a noção de beleza
Do meu umbigo o aprendizado sobre o alfabeto
Da uretra a memória de um beijo
Da vagina a memória de uma guerra
Do meu anus vazou a minha vocação profissional, e a falta de grana
Dos poros da minha pele saiu o ano de 1964.

As memórias estão vazando, nadando pra longe. A memória tocou a superfície de outros continentes. A água toca a borda de tudo. Fronteira derrubada.

Dramaturgia off

Setembro de 2019
Camada do apaixonamento + Camada do cento da terra

 

Quarta camada: Apaixonamento

 

Cadê as outras?
Meninas?
Alguém?

 

Pessoal?

 

Não reconheço nada que não seja eu. É muita coisa. É outra coisa. Todo o prazer do mundo, toda dor… Socorro! Tem alguém aí?
Estou cansada, estou cheia, não consigo mais entender coisa alguma, estou cheia, estou farta, estou explodindo de palavras soltas, ideias partidas…
Será que eu canto? Será que elas vão me ouvir?

 

Tô afundando?

 

Sou solúvel, não respiro mais. E agora qualquer mão estranha me salvaria, o toque de uma mão viv.. Ai.
Quem tocou em mim? Ou o que?
Se afastem.

 

Ai.
E agora?
Esse toque foi diferente. Foi… Molhado. Quem é você?
Ai.
Isso foi um beijo ou um tapa? Não sei se eu gosto.
Você é feito de lona? Eu não sei o que pensar dessas bolas que desabrocham, dessas cavernas, tudo isso ainda é você?
Que gostoso…
Isso é uma couraça? Que coisa linda.
Você é feito de duas porquinhas e seus filhotes? Um cano desembocando em praias, lagos, lagoas…Eu não consigo entender esses sentimentos, essa flor nasceu com você? Eu consigo tirar essa pedra do lugar? Você é um eco que ressoa? Uma baleia?
Para, me larga. Não consigo, não posso dizer o que sinto.
Por que você não tem boca?
Me toca, por favor…
Não poderia falar com você, não posso beijar ou fazer sexo com você. Te amo, será que quero comer parte de você? Será que te amar seria passear com você, estar ao seu lado, em frente, unir o mais mole de mim, com o mais mole de você.
Me diga o que estou sentindo, me diga o que penso de você. Onde estive? Do que eu gosto? Sentir o gosto é gostar? Posso gostar de você? Por que estou me movendo? O que me move? O que te move? Podemos mover juntas?
Eu quero nadar com você, me molhar de você, inundar, encharcar, liquefazer. Eu quero afogar você, descer até o fundo, tocar o chão do mar com seus pés.
Quero perder meus pés, ganhar barbatanas.
Quero ter órgãos gigantes, quero bombear o teu sangue, sentir a sua sede, matar a sua fome que cresce na minha barriga, como um embrião, uma novidade, um sopro quente de vida.

 

Quinta camada: Centro da terra e retorno

 

Três amalgamas mulher-peixe-tecnologia tocam no mais fundo
Perdeu-se a palavra, algumas frases escapam por entre sons

 

Estamos a 11.034 metros de profundidade.

 

Esquecidetomar minha medicoração. Minha medicina.

 

Tô com um gosto ocidental na boca.

 

Eu precisa chorei, ela

 

 

Nos resta, cavar.

 

Cavam freneticamente em direção ao centro da terra.

 

Perfuro os 70km de crosta terrestre
Corto, rompo, atravesso, furo, enfio
Arredondo o vertical!
Minha pá completamente derretida pelo calor, minhas mãos em carne viva, continuo cavando, cada vez mais rápido.

 

Abro caminho, atalho, desvio
Vou tocar no coração do mundo. Eu vou. Sigo cavando em direção ao centro da terra. Cada vez mais rápido. O fogo também uma espécie de liquido, mas não faz concessão. Dissolve a pele, refaz o contorno, meu corpo agora contido pelos músculos, cava.
Minha pele já se foi, meus pelos carbonizados.
Daqui do centro da terra escuto todas as línguas faladas no mundo, um uníssono da linguagem, um zumzumzum de gente falando. E a falação tem tanta coisa em comum: querem-se coisas de todas as partes, e fazem acordos, declaram guerras, desejam, discordam, repensam, amam, batem, cospem, sangram, compram e vendem, e compram e vendem, e sentem fome, e tristeza, e medo, e tem suor, pele, polegar opositor, tem palavra que inaugura vida, contratos, países, leis e poeminhas feitos em notas de 2 reais.
O que é aquilo ali boiando no meio do fogo?
É um casco de cavalo!
De camelo
De besta.
Égua grande

 

Não é de equino.

 

E simplesmente
Outra memória se instalou no meu corpo. Uma memória que não era minha. Uma memória-outro. A memória de uma baleia com o coração gigante, do tamanho da terra. Uma memória ardendo em brasa.

 

O que é aquilo ali boiando no fogo?

 


Sinais de respiração? Sim.

 

Aqui, entre o tórax e o mamilo … Isso!

 

Apoia a mão no centro do peito. Assim?

 

Vai!

 

Rápido e forte.

 

Reanimam o coração

1 2 3 4 5 … 1 2 3 4 5 … 1 2 3 4 5

 

Primeiras batidas.


Um vulcão em erupção ou uma baleia que esguicha
As levam de volta para superfície.


FIM.

Dramaturgia off

Abril de 2019
Prólogo da última peça do mundo + rascunhos

 

Olá, boa noite.

 

Boa noite a todos. Infelizmente a sessão de hoje será cancelada. A gente recebeu um comunicado sobre o alerta de tempestade que foi veiculado pela prefeitura agora há pouco. Eu sinto muito pelo cancelamento. A gente vai tentar viabilizar convites para todos vocês nas próximas sessões, estou torcendo pra que existam próximas sessões… Nosso espetáculo foi interrompido pelo fim. Estamos tentando segurar as rachaduras pra evitar o alagamento, mas me desculpem, a noite não é boa.
Também vamos disponibilizar capa e guarda-chuva para vocês retornarem pra casa. Os que desejam uma experiência mais imersiva estaremos disponibilizando também roupas de mergulho, cilindro de oxigênio, snorkel.
Todo mundo sabe nadar? Será um mergulho profundo… Mas eu agradeço muito por estar passando por isso com vocês. Obrigada pela parceria. Eu odiaria passar por isso sozinha.
Além da chuva, houve uma pequena, quase imperceptível reacomodação das placas tectônicas Sul-Americana e Nazca. As placas se moveram. Se deslocaram. Cansaram. A reacomodação ocorreu exatamente onde se localiza a América do Sul. Acontece que nós somos Sul Americanos, apesar disso ser esquecido com alguma frequência. Mas quando acontece alguma catástrofe em dimensão global a gente precisa lembrar onde estamos. E caso vocês tenham esquecido estamos na América do Sul. Não na do norte, muito menos na do centro. Estamos na América do Sul e somos Sul Americanos, logo vamos ter que nos reacomodar também. Não adianta tentar sair porque lá fora está pior.

A nossa noção de VIDA se concentra basicamente numa fina crosta terrestre em cima de uma piscina de fogo, magma, e sei lá mais o que. Uma fina camada. Uma pele de terra que segura a humanidade em cima do fogo.

Quase um acaso. Um equívoco? Não.

A humanidade não é um equívoco. Não pode ser. Não. Não aceito. Ou será que…
Vou desenhar o cenário pra vocês: Tem um micro espaçozinho fino de terra, pra dentro é fogo, pra fora é vácuo e extraterrestre. E boiando em cima do micro espaçozinho fino de terra tem as massas de água. Os oceanos. O mar…

A gente só conhece 20% das profundezas oceânicas. Isso me preocupa muito. Por que com essa tempestade, e o reacomodamento das placas, sabe-se lá quais criaturas podem emergir. Ou quais criaturas vamos encontrar, caso a gente que afunde.

Essa altura eu já tô achando melhor vocês aceitarem o naufrágio.

A gente pode contar até 10 e prender o ar todos juntos. Cada pessoa no planeta. A última inspiração da humanidade. A água movendo tudo: A primeira coisa que a gente notaria seria um curto circuito aqui no teatro, ficaríamos sem luz e vocês acionariam as lanternas dos celulares, bem como a luz de emergência. Diferente dos morcegos e dos vampiros nós nos sentimos mais seguros em regiões iluminadas.

Aos poucos a água moveria os alicerces dos edifícios, tombaria as colunas, inundaria as avenidas, as estruturas da civilização ficariam expostas.

A água tá vindo. Vai naufragar esse teatro. As cadeiras de vocês flutuando, talvez caia um refletor, as roupas colando no corpo, os cabelos iniciando uma movimentação por conta do empuxo da água.
Vamos afundar juntos, fiquem tranquilos. Ao contrário do que vocês estão pensando isso não é culpa do tempo. Não era um espetáculo sobre o fim, como tantas obras primas que se apresentam hoje. Estávamos animadas, era mais sobre um meio, um começo. Era uma peça sobre construção, uma opereta positiva sobre os tempos melhores.

 

A cena afunda. O teatro está dentro do mar. Tour subaquático.

 

Esse pode ser um bom momento pra procurar objetos perdidos. De repente aquele seu elástico de prender cabelo tá enrolado na Torre Eiffel, seu guarda-chuva nos braços do Cristo, aquele amor da adolescência sentado nas pirâmides do Egito. Uma carta não entregue queimando junto com Alexandria.

A alteração da gravidade proporciona esse tipo de encontro. Não se desesperem. Não é a primeira vez que a humanidade afunda.
Todas as maravilhas da civilização e da natureza ensopadas.


Todas as nossas tentativas de sermos seres culturais: Projetos de lei, tratados de paz, acordos de guerra, cartilhas, mapas, diários, receitas médicas, exames de DNA, um livro lido pela metade por cima dos ombros de alguém no metrô. Fragmentos da bomba atômica, uma cédula eleitoral, os brincos de Cleópatra, a borda de um copo carimbada pela boca de alguém que bebeu água antes de deixar o país…


Tudo afundou.

 

A humanidade se compreende muito pouco como espécie.

Dramaturgia off

REPERTÓRIO ESPUMA CIVILIZATÓRIA –


Não percebia, havia perguntas a serem feitas. Só a partir disso o mundo se faria.. Mas os pensamentos eram povoados de certezas, afirmações. Lixos, intestino contraído, labirintos fechados, crateras, poros em erupção.  Tudo  grande, mundo enorme, ela micra. Não havia meio de encarar aquela parede, criar saída. Fez-se de silêncios, solidões, encapsulamento, confusão mental, falta de atenção, paranoia, psicose, neurose, tudo covardia? Métodos que não deram certo: gagueira, tique nervoso, afastamento social, expressão por gestos, espasmos. Falar era de direito mas a constituição física milenar não permitia, pensava que era roubo do tempo, que o máximo do direito era querer. Falar é direito? .Resolveu ficar careca, deformada, corcunda pra ser coerente com o que sentia por dentro.

 

Barulhenta derruba prato, a comida cai do garfo, engasga, a bebida não cai bem, queima na largada, por dentro, no concurso de natação, caga na calça, tem medo, trava a coluna, epilepsia não convulsiva, sopro no coração. Hipocondríaca sim.

 

Que se dane, os astros já diziam isso, o que importa é saber lidar e rir, rir muito.

 

REPERTÓRIO ESPUMA CIVILIZATÓRIA/DILACERAMENTO:  

 

– Da licença eu não queria incomodar, não queria atrapalhar

-Pode entrar, estou aberta , a casa está  aberta pra novas relações

–Eu não queria mesmo interromper, eu sou super discreta, não faço barulho, quase não ocupo espaço, você não vai nem ver que eu existo, caibo em qualquer lugar, fica tranquila . Não preciso fazer barulho .– tudo isso, dando machadadas no chão.

___

 

REPERTÓRIO ESPUMA CIVILIZATÓRIA: 


(Manual sedução)

 

para seduzir coloque o queixo de lado

bem perto do ombro direito

faça um olhar para o infinito

pegue uma mecha do cabelo esquerdo e coloque sutilmente do lado direito

se a pessoa desejada não prestar atenção: insista

abra a boca de leve 2 cm,  mas sem parecer vulgar

retraia o ânus, não se sinta muito a vontade, não abre as pernas pode parecer…viril

esboce um sorriso, mas não finalize

deixe seu olhar deslizar até chegar um ponto fixo, seja flexível

não de muitas gargalhadas, não gesticule muito

sorria com os olhos , mostre incerteza

finalmente se a pessoa se sentir seduzida, não demonstre felicidade, é importante manter uma indiferença, pelo menos interna

 


 

Queda dos objetos
braço, casco, coração
arte marginal – cu?

 

(Cai um braço humano com um casco)

 

– um casco de cavalo!

– de camelo…

– de besta.

– égua grande.

– não é de equino. Vocês não chegaram a conhecer. É de um humano. Eu ainda vivia no corpo de carne, não quis fazer as trocas.  Os implantes de mão acabam com a vontade que a gente tem de fazer coisas com as mãos de polegar opositor.  A mão é hábil demais e adora fazer coisas então amputar ajuda. As amputações se tornaram inclusive muito prazerosas. As anestesias são as mais divertidas drogas do mercado e com a vida virtual as mãos realmente são pura âncora no mundo físico, pura tentação de nostalgia.

 

Cai uma pedra 
(na verdade é um coração humano muito duro)

 

– uma pedra vermelha?

– uma pedra de sangue escuro!

– é um plástico.

– um plástico concreto duro como um metal duro…

– isso é um coração humano.

– meu deus. E o ser humano ainda tem cu?

– não… dos que vivem na carne alguns conseguiram virar do avesso e hoje não só ainda têm cu como são só cu. Sóis de cu lembrando e cagando tudo, fertilizando os campos que restaram. Toda arte marginal é feita pelos cus. Vocês também fazem arte marginal aqui? Tô vendo um fresnel… Na superfície nada mais tem cheiro, só os cus são o que são.

 

 

Dramaturgia off

Água batendo nas canelas.

 

Lu: Boa noite. Desculpem, a noite não é boa. Nosso espetáculo foi interrompido pelo fim. Estamos tentando segurar as rachaduras pra evitar o alagamento, mas infelizmente… Infelizmente, parece que uma placa tectônica se moveu. Se deslocou. Cansou. Não adianta tentar sair porque lá fora está pior. E uma enorme onda se levantou.

 

Água batendo na cintura.

Laura: Será um mergulho profundo. Não temos equipamento de segurança no teatro. Mas eu agradeço muito estar passando por isso com vocês. Obrigada pela parceria. Eu odiaria passar por isso sozinha.

 

Água batendo no pescoço.

 

Sarah: Médico? sanitarista? engenheiro? pedreiro? tem algum matemático? escritor presente? Algum bombeiro ou piloto talvez ou uma faxineira um crítico pra .. ao contrário do que vocês estão pensando isso não é culpa do tempo. Do velho teatro. Não era um espetáculo sobre o fim como tantas obras primas que se apresentam hoje em nossos palcos. Estávamos animados, mostrávamos mais um meio, um começo. Era uma peça sobre construção, era uma opereta positiva sobre os tempos melhores que viriam depois da merda e da ignorância. (Cai um refletor)

 



Um refletor cai no capô do Fusca.

 

1: O que foi isso?

2: Isso o que?

1: Esse barulho

2: Que barulho?

3: Barulho? Não ouvi nada.

1: Esse barulho. De… Não sei…

3: Não teve barulho nenhum

2: Não deve ser nada. Semana passada você me fez ir lá fora verificar o perigo eminente de um pedaço de ferro velho

3: Uma âncora enferrujada de altíssima periculosidade.

1: Não pareceu barulho de âncora.

2: Agora você cataloga barulho?

1: Eu só estou dizendo que não é um barulho comum

2: Defina um barulho comum

1: Comum é comum. Comum. Desses que a gente escuta todo dia.

2: Tipo?

1: Tipo…………………………..

2: …..

1: Tipo um barulho que não me dê medo

3: Medo?…

1: É, medo. Caramba. É perfeitamente esperado que eu escute algo novo e sinta medo. Medo dessa coisa nova ser tão nova que altere completamente meus princípios. Eu não estou preparada pra viver algum tipo de revolução auditiva a essa altura da minha vida. Se até hoje eu não ouvi, então vai ver que eu não preciso me abrir a determinadas frequências sonoras. Veja bem, a audição humana sofre um processo de deteriorizaç…

2: Tudo bem. Eu vou lá fora.

1: Obrigada.

2 começa a se arrumar para sair do Fusca. 1 também se prepara.

 

2: O que você está fazendo?

1: Eu vou com você.

2: Se você vai comigo porque eu preciso ir?

1: Como é que eu posso ir com você se você não for?

2: Você pode ir sozinha

1: Jamais.

2: Por que?

1: Porque se eu quisesse ir sozinha verificar essa aberração acústica eu levantava e ia.

3 sai do Fusca. Nota o refletor.

3: Não é uma âncora.

2 e 1 saem do Fusca.

1: Não. Não é.

2: Que merda é essa?

1: Não sei

2: Como assim não sabe?

1: Não sei, não faço a menor ideia.

2: Se você não sabe eu não me atrevo nem a pensar sobre o que talvez essa coisa possa ser

1: É de metal…. Tem algo parecido com encaixes, filamentos, tem cara de coisa do século 20. Um tipo de lente convexa, mas fina demais pra ser de grandes embarcações, faróis; E grande demais pra prestar algum tipo de auxílio a visão.

3: Não é um navio, nem um óculos…

1: Você não tá ajudando

2: Você que não tem foco

1: Foco!

2: É, foco. Fica aí divagando sobre a navegação e a oftalmologia

1: É um refletor. Um Fresnel pra ser mais especifica.

2: Refletor?

1: É, de teatro.

2: Que que é?

3: Aquela coisa que as pessoas faziam…. Juntava todo mundo num canto e ficava olhando prum outro canto…. E ficava olhando… O outro canto tava cheio de gente fazendo umas coisas meio assim … Falando sobre umas questões…

2: E as pessoas ficavam só olhando?

3: Às vezes falavam também. Às vezes tinha que levantar e tal. Mais ou menos por aí.

2: Hum…

1: Re-fle-tor. Nunca mais tinha pensado nisso.

2: Anota no teu livrinho

1: Não é um livrinho é um compêndio sobre os vestígios da humanidade

2: Parece um livrinho

1: Não é

2: Acho um nome muito chique pra um livrinho onde você anota os bagulho que o mar traz.

1: E esse refletor?

2: Devem ter jogado fora.

1: Não…

3: Mas por que um refletor cairia aqui agora tão verticalmente?

1: Refletor, teatro… Você sabe o que é porque é isso que sempre foi, sempre diferente e sempre nada….

3: Não tô entendendo

2: Refletor é uma coisa que existiu por alguns séculos apenas no fim do segundo milênio, início do terceiro, porque depois a luz se fez de outros modos , enfim, mas era basicamente um tubo produtor de luz. Para teatro. Ou cinema.

 

1: Cinema. Meu Deus… A gente esquece tanta coisa… Mas das palavras não. Cinema. O cinema. Palavra bonita. Cinema.

2: Gosto mais de refletor.

Cai um sapato


3: E isso?

1: E agora isso. Toda a fauna e flora marinha se alterando por conta dessas quedas indevidas. Isso tem a ver com a gente? Nosso fusca foi localizado? Como? Por que um refletor? E esse som? Tão ouvindo esse som? É um som enorme, é som de coisa enorme afundando.

 

Cai um machado, um ukulelê.

 

2: Parem! Parem de afundar.

3: Eles não podem nos ouvir, já devem chegar mortos

2: Melhor pra eles.

1: Como assim? Eles quem?

 

Cai uma britadeira, um piano, a roda.

 

3: Nenhuma criatura que se mova vai continuar em repouso. A água é outra, nós mesmas já sentimos isso.

1: Sentimos o que?

3: Medo

2: Não tô com medo. Tô com raiva.

 

Cai um celular, um disquete, tecnologias.

 

2: Vocês não podem vir. Eu proíbo.
3: Eles estão vindo

1: Eles quem?

3: Eles…

1: Os da superfície?

 

Caem outros objetos contemporâneos.

 



Duro. É duro tudo dentro de mim, o sangue nas minhas veias está endurecido não te vejo mais, não sou capaz de ver a água, tudo é sólido ao meu redor. É duro dentro de mim, eu trouxe o mundo pra dentro de mim e tudo não coube e se apertou e endureceu. Nada mais sai, nada mais entra. Estou parada, estou cansada, estou cheia, não consigo mais entender coisa alguma, estou cheia, estou farta, estou explodindo de palavras soltas, ideias partidas, não conheço mais nada que não seja duro, não sou mais solúvel, não respiro mais

 

Dramaturgia off


As entidades da água não pedem licença, elas simplesmente se instalam.
Fluem
Embaralham o dentro e o fora.
Turvam fronteiras, movediça certeza de que sou densa.

Eu voltei a pôr os pés na água. Molhei.
Calei os tantos vestígios de civilização que compõem a linguagem.
Calei os pés e a ideia de que deveriam sustentar alguma coisa.

Molhei. Mergulhei.
Levou o tempo que o corpo leva pra equilibrar a temperatura interna com a temperatura da água. O tempo de um susto: água fria no corpo quente. Um susto pré programado.

“Vou entrar no mar , deve estar gelado” …………………. “ ai meu deus, que gelo”
mesmo nos mares de água quente, o primeiro mergulho é frio.
Calei os olhos.
Molhei. Boiei…

Até que saíram, uma a uma, as minhas memórias. Boiaram ao meu lado. E à medida que elas vazavam pelos meus buracos, eu perdia o sentido do “meu”.
Do buraco dos olhos – Meus planos de futuro, o papel de parede, o óculos de grau, a paisagem da velhice… A primeira palavra que eu aprendi a dizer vazou pelo meu olho.
Da cavidade do ouvido – Uma canção de ninar, a sinfonia do transito, o gemido da mulher mais linda do mundo.
Do nariz – As memórias de gosto. Desaprendi quais comidas me agradam, quais pescoços me seduzem, qual a minha inclinação política, que tipo de inteligência me molha.
Do buraco da boca – Saiu uma sereia, o dragão de São Jorge, uma personalidade satélite, saiu a minha genealogia, a linha do tempo, o meu medo da morte.

Segui boiando. Por menos memórias, mais leve.

Do bico do meu peito vazou um rio e a noção de beleza
Do meu umbigo o aprendizado sobre o alfabeto
Da uretra a memória de um beijo
Da vagina a memória de uma guerra
Do meu anus vazou a minha vocação profissional, minha falta de grana, a barba do meu pai.
Dos poros da minha pele saiu o ano de 1964.

Enquanto eu mergulhava, as minhas memórias iam nadando pra longe. Tocando a superfície de outros continentes. A água toca a borda de tudo.
E simplesmente
Outra memória se instalou no meu corpo. Uma memória que não era minha.

Um país que eu nunca estive, um idioma ainda não experimentado, um trauma que não era meu, mas que agora me ensinava a reagir.


Um atum nada até 64 km por dia

Os golfinhos dão nome uns aos outros.

Em 1963 o golfinho Flipper se afundou num tanque propositalmente até morrer por não aguentar mais a vida em cativeiro

Os filhotes de tubarão tigre brigam entre si na barriga da mãe até sobrar apenas um e só ele nasce

Os tubarões são míopes Um tubarão zebra teve três filhotes sem manter relações sexuais com um macho os filhotes nasceram apenas com DNA da mãe

10% das espécies de peixe trocam de sexo uma vez na vida.

As ostras mudam de sexo dependendo do que é vantajoso pro acasalamento

Quando uma fêmea de um grupo de um peixe palhaço morre o macho se transforma numa fêmea para substitui-la.

Os EXTRA terrestres podem estar no fundo mar

Harold é um homem que já jogou mais de 4,8 mil mensagens em garrafas no oceano e recebeu mais de 3 mil respostas

A água é o solvente mais usado no mundo os oceanos cobrem a maior parte da superfície terrestre mas sua água não e adequada para o consumo

Menos de 5% dos oceanos já foi explorado

80% das doenças do mundo são resultados da ingestão de água contaminada.

Na beira daquele abismo, juntas como o combinado, atrás de nós o veneno o fogo e o fim de tudo. Explodimos as ruínas e os demônios e saltamos no ponto onde o mar é mais profundo. O plano era levar até o centro da terra nosso último suspiro… A última gota de ar das últimas humanas. Um plano….