Diário das atrizes

LAURA FAJNGOLD

Diário das atrizes

O livro teoria king kong (de Virginie Despentes) é um soco no estômago. Ponto de partida, um relato autobiográfico refletindo sobre a violência imposta ao corpo feminino, a ditadura da imagem e como sobreviver a todos esses padrões impostos desde que o mundo é mundo (?). Uma liberdade que conquistamos. Conquistamos? 

King kong é a metáfora de uma sexualidade anterior a distinção de gênero. Reflexões.

 A origem, o começo de tudo.

Segundo Simone de Beauvoir  “Não se nasce mulher, torna-se mulher, nenhum destino biológico, psíquico ou econômico define a forma que a mulher ou a fêmea humana assume no seio da sociedade”.

E a palavra feminismo , se alargando, entrando pelos poros, liberdade, igualdade, justiça. O que significa tudo isso?

Luta por liberdade, imposições, mentiras que nos foram contadas.

Como as palavras de Despentes reverberaram? Reverberam. Como vemos este feminino?  O que é masculino? (pesquisa pessoal gestos). Limitação e ideias estereotipadas.

Etimologia das palavras. Criação de textos pessoais e autobiografia. A que tipo de repressão fomos sujeitas (experiências pessoais, abusos)?

Desconstruir-inverter posições. Em busca da própria liberdade.

Musicar os manifestos. Musicalidade e ambientações sonora-desconstruir melodias-novas linguagens.

Criação de uma fábula. Seria um fim de mundo? O fim e um possível começo de uma outra história?

Três mulheres privilegiadas, sobreviventes no mundo pós apocalíptico,  se jogam no abismo, no oceano. Como se desapegar da civilização e suas luxúrias de um mundo já destroçado?  A crosta terrestre gangrenou… qual  minha última memória? Meu fascínio por baleias, meu medo da morte, uma palavra não dita a meu pai? 

Em busca do calor, do centro da terra, do coração – é só com a substância cardíaca que criamos pontes. Circulação sanguínea. Utopia. As idéias não acompanham o fluxo do coração.

“ Mas um coração quase morto não impede a mente de crescer e criar corpos gigantes, corpos sem sangue, próteses” – criar um corpo para destruição

O corpo mental e físico não podem, não devem, se expandir sem o coração.

Tudo reverbera dentro do corpo, na corrente sanguínea…

Corpo-novas formas-não humanas-novos seres-peixes do fundo do mar-paisagem inversa-liberdade de existência-transumano-invenção de palavras-desfazer raciocínios-inventar uma nova história-sem opressões-omissões. Reconhecimento da nossa história-mulheres brancas privilegiadas (ter essa consciência não basta), surge uma crise: eu tenho voz? Minha história tem relevância? Me lembrei do holocausto ao qual minha família foi submetida. Dor (silencio) alguém me escuta?  Levantamos a poeira da história (podemos nós fazer isso?). Reconhecimento das lutas raciais, estruturais-relatos equivocados.

Ouvir a voz das mulheres-baleias-Sojourner-Nina Simone-Judith Buttler- Chimamanda, Rosa Luxemburgo, Dona Helena benzedeira minha vizinha (que deus a tenha).

Minhas próprias prisões, limitações, mutilações, o grau da escravidão, negação do corpo, luz sobre minha consciência.

Quem seriam essas personagens? Uma esquimó que vivia com as baleias que perdeu completamente a memória?

Transformações. Um humano aquático?

Decidimos que mergulharíamos se sobrevivessemos ao caos da humanidade. 

Morte xamânica/mergulho/saltamos e atravessamos um portal.

Camadas-mergulho-aprofundamento-três solidões juntas-nosso próprio dilaceramento-nossas biografias sendo demolidas-memórias dilaceradas-assassinar os padrões-contos de fadas sendo desmontados-visões de mundo introjetadas e vomitadas-voltemos à origem de tudo-à origem do mundo-o que seria essa nova maneira de ser e sentir? Reinventar sentimentos. O que seria amar, de outra maneira, amar. 

Ar 

Sentir através do outro, ser um outro, ser o outro.

O machado que corta os membros e os sentidos se desorganizam. A cada camada um entendimento, a cada mergulho um insight e uma nova forma de existência.

Isso é possível? Levar o último suspiro humano para o centro da terra-utopia máxima-ligação entre todos-circulação-transfusão-desobstrução-fusão de corpos-desmembramentos.

Os plásticos e os materiais deram forma  a este universo onírico do fundo do mar-dejetos-vestígios-vestimentas-gestos-corpo fluido-líquidos do corpo-sangue.

Ah as memórias de uma civilização! Leis, tratados, receitas de bolo, uma notícia de jornal, lixo produzido pelo humano, um vestido de marca, conversas intelectuais cultas e supérfluas. Cardumes de mulheres que dançam, olham o passado umas da outras, se preparam para um papo socialmente inteligente, gestos femininos, masculinos, formas de seduzir, formas engessadas. 

Recuperar o humano-resgate da emoção-do coração-instruir novamente o ser humano-o que é ser humano? Não nos comovemos mais. Letargia.

 

(respiro)

 

No meio do processo encontramos artistas importantes. Soraya Ravenle, Cris Moura, Renato Linhares, Dani Visco: arejando os caminhos, organizando nossos repertórios internos, reflexões:  estamos dentro de uma forma, a normalidade? O que é ser normal?

Qual meu estudo dentro de tudo isso? Qual minha investigação corporal? O que quero expurgar? Paro por alguns instantes. Silêncio. Agora penso. A possibilidade de um novo humano. Formas corporais novas e livres. Nem o bipedismo como norma. A pesquisa do corpo além dos limites de um corpo. A busca por sutilezas, ampliação do espaço interno e externo.

 

Entro no abismo.  Meus pés precisam estar fincados na terra, sem força, a sutileza de se habitar.

Tudo naufragado.

Onde estamos agora? Isoladas do mundo. Fomos interrompidas. O que será de nós?  

Vocês estão ai? Só ouço o eco.

Sim.Posso ouvi-las ao longe.

Diário das atrizes

LUCIANA FRÓES

Diário das atrizes

CASA GEORGETTE  

Presença e encarnação do mistério. Impressionante, desde aqui conversávamos sobre a possibilidade de trazer para a matéria forças espirituais/psíquicas e o desejo de colocar isso no teatro.

Sangue transformado em energia – sutilizar, evoluir, exige esforço

Energia transformada em sangue – involuir dá-se espontaneamente

CASA GEORGETTE

Paul Preciado e as Próteses. Tecnologias reservadas ao uso médico entrando no espaço doméstico. Está forte o papo aqui. Como valorizar o toque, a sensibilização do corpo inteiro como área erógena.

“Origem do Mundo” Quadrinhos  da história do pensamento masculino sobre o corpo feminino, a apropriação de narrativas equivocadas, arbitrárias e abusivas.

O ASSASSINATO DA BOA CENA

Formas de assassinar a observadora feroz que há em você. Assassinato do momento ápice. Do que lhe é mais caro, do que foi construído como alta performatividade. Assassinato da ignorância sobre si. Como sobrevivemos, aceitamos ou vivemos em corpos que não os nossos velhos conhecidos, como abrir mão do que se conhece tão bem?

Deu vontade de usar maquiagem, muita cor, sangue, acessórios, mutação de corpos.

WORK and HOPE

Sarah comendo banana compulsivamente, se esticando compulsivamente, ouvindo sobre sexo compulsivamente, ouvindo música compulsivamente.

Mas por quê? Mas por quê?

Deu vontade de cortar os pés dos bancos onde estou sentada, de onde ela está sentada. Um banco na cabeça, um banco na bunda, um nos pés. Todos cortados, sangrando – partes do corpo cortadas, sangrando

ENCONTRO COM KENIA

ESTÃO PRONTAS? PODEMOS COMEÇAR?             

AGORA PODEMOS, AGORA SIM. AGORA EU TO PRONTA, AGORA VAI. AGORA É MINHA VEZ.

TÁ BOM ASSIM? TÁ BOM?  E ASSIM, TÁ BOM?

Ataque, Ataque, Ataque – eterno esforço

Eterna preparação e busca do momento certo, de legitimação.

Excesso de esforço para nada.

ACOMPANHAR A TRAJETÓRIA

Exercício bonito.

Uma se move, as outras permanecem paradas e acompanham com os olhos a trajetória dela. Olham com um certo atraso por onde ela passou, nunca se alcança o lugar onde está agora, o presente, acompanha-se o rastro, não é possível capturá-la por mais que se tente. Ela escapa.

TRAJETÓRIA 2 

Duas pessoas acompanham a trajetória de uma terceira, exaltam-na profundamente. Agem como dois cocôzinhos insignificantes olhando para a grande ídola e descrevendo a perfeição humana. Depois de certo tempo esse olhar se transforma, passa-se a enxergar e descrever os ossos, as entranhas, os excrementos do corpo da que antes era a grande ídola, a pele flácida, o que se ouve é sobre a destruição, o fim, sobre um resto de gente.

ENCONTRO – E SE NÃO FOSSE O OUTRO?

E se você se permitisse ser o que bem entendesse? Voce é?

Fundo do mar. Se você fosse um peixe das profundezas, como seria?  O olhar do outro lhe dá forma? Ações que poderiam ser um cumprimento:  abrir as narinas? Dar tchau? Cotovelos para o alto, cheirar, abrir os olhos, falar, assobiar, calar-se, gritar. Cheguei em casa cansada, deitei no tapete, tirei uma cera do ouvido e desci pro buraco.

Descendo pelas camadas do oceano, mulheres se encontram. A crise do discurso direto, crise da razão, crise em relação ao pensar, disputa e reinvenção.

ENCONTRO

Pesquisa debaixo do chuveiro. Por alguns minutos, no escuro, água batendo na cabeça, qual a sensação?

Deu logo vontade de ir embora, achei um saco, não gostei.

ENCONTRO – EXERCÍCIO CENA BEBÊ

Um bebê está morto. Paramos, olhamos e não sentimos nada. A descoberta de que não sentimos nada diante deste corpo na beira da praia. Estamos em um deserto de emoções. Forçar o choro, forçar a emoção, fazer o impossível para chorar e não conseguir. O espanto diante deste deserto de emoções, talvez ele nos faça chorar.

ENCONTRO – INSPIRADO NO TEXTO ASCESE

” Ouço uma ordem dentro de mim: 

–  Cava! Que vês?

–  Homens e aves, águas e pedras!

– Cava mais! Que vês?

– Idéias e sonhos, relâmpagos e fantasmas .

–  Cava ainda mais! Que vês?

–  Não vejo coisa alguma! Só a noite muda e espessa como a morte. Deve ser a morte.

 –  Cava, cava!

– Ai , não  posso atravessar  a muralha ! Ouço vozes e prantos ,  ouço bater de asas do outro lado!

 – Não chores! Não chores! Não é do outro lado ! As vozes e o bater de asas são o teu coração!

Na ponta dos pés chego ao abismo do coração. Um dos pés se apóia no chão firme, o outro tateia as trevas do abismo.  Salto. 

ENCONTRO – COMPOSIÇÂO MUSICAL  

Compor músicas a partir de trechos dos livros Segundo Sexo, Teoria King Kong.

“O estupro é um programa político preciso”; Napoleão declarando que “assim como uma pera pertence ao dono da pereira, a mulher (…)”; “não são confiáveis, muito histéricas, gozam alto demais”; Santo Agostinho dizia que a mulher é um animal que não é; já para Balzac “a mulher casada é uma escrava que (…)”; “(…)espera-se que assim ludibriadas e convencidas por essas facilidades(…); “(…)seu papel de mãe e dona de casa”; “A mulher não pode ser muito intelectual”; “Fazer o coração de um homem bater é o destino e a glória da mulher”; ”Mesmo que ele tenha precisado bater nela…”; “Tenham filhos, é incrível, vocês se sentirão mais mulheres e mais realizadas do que nunca”.

ENCONTRO/ MASCULINO / FEMININO

Materiais : Machado; Tronco; Sangue; Suor; Serrote; Facão; Salto alto; Apliques; Cílios postiços; Batom; Rabo; Mini saia; Vidro; Vibrador; Botas

ENCONTRO KENIA – A PRESENÇA DO CORPO AUSENTE

Três corpos no espaço, um se retira. O vazio deixado.  A ausência contornada pelos outros corpos que se movem como se o terceiro ainda estivesse ali. As formas compostas. O registro impresso nos outros corpos. Lacunas abertas no espaço pela lembrança do terceiro movimento.  Qualidade de pintura. As linhas deixadas.

ENCONTRO KENIA

Sequência de 5 movimentos partindo do centro para a extremidade.

Amo essas propostas.

A mesma sequência deitada, em deslocamento; toda a sequência apenas com uma parte do corpo; ampliar no espaço, concentrar a intenção apenas no olho, só na boca. No ombro.

Insistir nos movimentos, na rapidez e retenção deles. Pausas.

Sequência Lu: giro bacia, braço direito sobe, sai perna esquerda (movimentos  partindo do centro); pendura braço direito, braço esquerdo, cabeça (movimentos que partem das extremidades) 

ENCONTRO 

Compêndio da nossa própria história, material enorme produzido.

ENCONTRO / PROPOSTA – TEXTO AMOR – ENCONTRO COM FIGURA DESCONHECIDA

Multidão subaquática. Ser que surge do nada, sorriso desdentado. Que olhos! Cara de goleiro esperando a bola. Se tivesse braços se abririam. Bicho que não consigo deter. Língua grossa se desdobra. Quer mergulhar na escuridão? Paisagens febris, bolas imensas e uma portinha ao fundo. Irresistíveis seus convites, é agora? Navios afundados, árvores, pássaros, flores e beija-flores submarinos abandonados. Niilista. Exclusividade?  Amigo de longa data. Odeia sons, música. Só eu te vejo. Perde tudo o que tem e odeia procurar. É a imaginação, né! Se tivesse pés os dedos não tocariam o chão, se tivesse barriga seria imensa e pernas seriam finas, muito finas. Meu flagelo. Achou!!! Dá rodopios na água, se afasta e volta na minha direção. Não pode ver um osso quebrado, um sinal de acidente, de machucado, risco de queda, insucesso, abandono. Basta. Qualquer repetição do cotidiano e desata a cotidianar . Este lugar tem cheiro de grama cortada. Isso aqui é bonito até com chuva. Fazemos nossa trava língua .” Me ajuda a olhar!

ENCONTRO – O INÍCIO DA ESPUMA CIVILIZATÓRIA

Escorregando pela cadeira, desmilinguindo, resistir ao peso quase esmagador da atmosfera, uma força muito grande puxa para baixo, finge-se que ela não é enorme. Um blefe. Age-se como se nada estivesse acontecendo. Uma farsa. Assuntos interessantíssimos, atualíssimos, tudo pose. Tentativas de cruzar a perna, de fumar um cigarro, nada se completa, movimento para na metade, no ar. Sustentar é questão de sobrevivência. O peso, a pose. Restos de falas, partes de textos.

IDA AO RIO DE JANEIRO

Dia 01 – Encontro Renato Linhares – Pequenos movimentos no corpo, um desequilíbrio sutil e imperceptível, uma pálpebra que cai, uma boca que entorta. No ângulo de 90 graus tudo se equilibra, se a alteração for de 91, 5 graus , perdemos a noção de certo e errado. 

Dia 02 – Cristina Moura – Propostas para cada Prólogo – Sarah: pausar no meio do texto, pequenas interrupções inusitadas. Luciana: sentada, nua, sem nenhuma pausa no texto; Laura: movimento pelo espaço inteiro . Meu amor.

Dia 03 – Encontro Soraya Ravenle – Texto das cadeiras, da espuma: o mesmo tipo de contágio que conseguimos na movimentação corporal, tentamos com a voz. Reverberações incríveis aconteceram.

ENCONTRO –  EXERCÍCIO KENIA –PRODUÇÃO DE TEXTO

Uma sentada no meio e as outras duas falando sobre assuntos diferentes, cada uma em um ouvido. A do meio fala o que ouve, conecta os assuntos do jeito que conseguir. Certa tranquilidade, desconectar a lógica de construção de frases.

Lista de assuntos: Lei do Ventre Livre; masturbação do braço; depilação com pepino; receita de creme de framboesa; trechos dos livros; frango ao molho pardo; como preparar uma bomba caseira.

ENCONTRO 

Konga, fera enjaulada, a guerreira se revolta.

Movimentação de 5 gestos feita lá atrás deu nisso.

Difícil mesmo é repetir.

ENCONTRO –  SÍTIO 

Dia 1 – Trabalho com bastão.

Dia 2 – Começo da Pesquisa “Ar e Pedra“ da Lygia Clark, sensações no corpo, peso, ar, superfície, o peso do ar sobre o corpo, o que separa o peso da pedra e o corpo é o ar.

Pedra e ar – inspiração e expiração.

“Surfar na desterritorialização tornou-se indispensável para constituir abrigo na paisagem em que vivemos, com velozes mutações”.

O desenvolvimento de uma imagem é desenvolvimento de pensamento.

ENCONTRO  

Ísquios/occipital/ côndilo occipital.

Ísquios para dentro encontram occipital, pulsões que nascem desse encontro. Elucidação do próprio corpo.

Ísquios que se acomodam acomodam o olhar. O corpo possui vibração interna que se amplia para o espaço.

Movimentos iniciados pelo occipital/ ísquio; aumento de vetores; inclusão dos movimentos  da bacia/ braço/ olhar; concentração; saída dos ísquios pelos olhos e retorno. E quanto ao corpo da galinha?

ENCONTRO – MULHERES BRANCAS

É sobre isso que queremos falar ? É isso que somos.

ENCONTRO  SEQUÊNCIA CADEIRAS 

Esses braços; essas pernas; este sorriso; esse café; esse cigarro; esse olhar; essa baboseira toda; essa acusação toda; essa melancolia toda; deixam a gente comovido feito o diabo. Lembrança de como é tomar um café. Lembrança de como é rir. Surpresa com tudo o que surge diante dos olhos e da lembrança.

 ENCONTRO – ENSAIO PARA APRESENTAÇÃO PROCESSO ABERTO JUNDIAÍ

Alguns prólogos foram produzidos, o teatro afundou, providências estão sendo tomadas. Imaginamos uma grande tempestade, não um vírus. Algo estava prestes a acontecer. Incluímos conversas sobre Cleópatra, sua beleza mais conhecida do que sua inteligência , a Biblioteca de Alexandria. Toda a memória guardada ou perdida no fundo do Oceano.

Gênesis desses personagens que caem no fundo do mar – um pedaço de meteorito caiu sobre a terra. Junto dele veio uma mulher.

ENCONTRO  

A informação de que Laura Vinci é nossa cenógrafa. Plásticos, sofás, acúmulo, objetos, destroços, ventos, guarda-chuva velho, rede de pesca, caça borboleta, barraca de camping, pé de pato, sapato de mergulho, peixes de borracha, cadeira de praia, narguile, velas para um santuário, ventiladorzinho, caixinha de som, telefone, pá.

ENCONTRO – PESQUISA COM PLÁSTICOS

Formas, ritmos. Movimentações possíveis a partir deste material. Fagocitoses, habitações, continuações do próprio corpo, o objeto expelindo outros objetos. Um rabo, um acessório, imagens que derivam de imagens.

ENCONTRO – ÁGUA

Decisão ou suspeita de que o espetáculo inteiro seria permeado por água. Bacias, chuveiros, sacos, nem uma gota de água no chão.

ENCONTRO –  AMOR

Observando o próprio corpo ou o da outra, como descrevê-los partindo de um olhar estranho a tudo? Descrição das mãos, das orelhas, ângulo do nariz, planta do pé. O que vemos são paisagens.

ENCONTRO – APRESENTAÇÃO DE WORKSHOP

Lu – Billie Holiday

   ” Isn´t it a pitty?”

Laura – Dilaceramento, partes do corpo espalhadas pelo espaço intermediadas pelo plástico.

Sara – Dança com o Último Peixe Morto.

ENCONTRO – NOVO WORKSHOP

Lu – Banho de mangueira, filete de água fria, nua, diante de uma porta fechada :   abre a porta…

O tempo tá passando…  eu estou sozinha aqui, você está sozinha aí…

Lau – Destruição da Boa Cena, facadas na terra.

Sara – Falando da Experiência do avô que matou a vaca na frente dela.

ENCONTRO – NESSES PORÕES DA CIVILIZAÇÃO

Sensação de superexposição – ossos aparentes, ossos como os procurados no Deserto do Atacama, pedaços de estrelas perdidas na terra. Mães arqueólogas querendo entender o que aconteceu. Não abrem mão de compreender. “Não quero um pedaço de mandíbula, quero o corpo inteiro”.

Carcaça exposta, carne morta, devorada, lugar frio da noite, de dia exposto ao sol. Protegida pelo céu, exposta à terra, protegida pela terra, exposta ao céu. Um circular constante, vertiginoso. Massacrada pelas forças passadas e futuras.

Nesses porões da Civilização é difícil acreditar no que se vê. Mulher: saco sujo e nojento de fezes e urina.

ENCONTRO – ESCADAS

Possibilidades de mergulho. Como encenar este mergulho, maneiras de estarmos de ponta cabeça, braços soltos, pernas soltas.

ENCONTRO JOANA

Proposta de Figurino.

Capacete, tubos, saia, macacão, calça, óculos de mergulho, Figurinos pesados que possam ser pendurados.

ENCONTRO ANA PAULA

Exercícios de Pilates. Sequência de movimentos com a bacia. Quedas.

ENCONTRO LUIZ GAYOTTO 

Pesquisa sonora com os textos dos porões. Frases musicadas, percussivas. Mantras, palavras cuspidas surgindo da História. A boca fala, repete padrões sem percebermos. Longo improviso.

ENCONTROS – UKULELE

Músicas, ajustes de início e fim de cada música, composição com as cenas.

ENCONTRO – Visita ao CCSP, acústica, frente, posicionamento do público, formas de iluminação, saídas, fundo, proporções.

ENCONTRO  NIL ALVES DE LIMA

Nos falou sobre a vida dela desde criança, trabalho infantil, a insistência em estudar, relação com a mãe, com a filha, período em que esteve presa, relação com outras presidiárias.

ENCONTRO LUCIA GAYOTTO

O coração é um ditirambo, uma bomba, um tambor tocando sobre o diafragma. O impulso da fala pode vir pelo excesso ou escassez de ar e fluxo do coração.

O som, vibração e sensação gerada por cada consoante. Um tipo de movimentação para cada fonema. A amplitude da voz, direcionamento;. A voz sai de mim enquanto retorna pra mim. Musicação das idéias. Grave, muito grave, às vezes musicar as consoantes, ir atrás das vogais. Elas levam ao fluxo também.

ENCONTRO ANA PAULA  – TRABALHO IMPULSO

Condução: não querer acertar; desejo de morrer, se jogar sem saber onde vai parar; o impulso começa por uma parte do corpo e depois não sabemos; parceria com tudo, com a parede, o chão; prontidão para se amar; trabalhamos para estar na borda; tenho a impressão que se eu soltar a cabeça vou explodi-la contra a parede; medo de perder o controle. O que causa esta impressão? Será real?

TRABALHO  DUDUDE

Relação céu e terra, distância entre os espaços. Tamanho dos ossos, distância entre as estrelas, buscas incessantes; marcas, impressões no solo, no mar; matéria, corpo celeste, corpo físico; memória, o presente existe? Entrar no corpo da outra, ultrapassá-lo, empurrá-lo.

ENCONTRO STEFANY NOGUEIRA

Conversa longa. As vivências na cadeia, as oportunidades que encontrou, a preferência por ficar em presídios masculinos. A relação com o pai.

ENCONTRO

Trabalho com mangueiras – Exocirculação – sopro de ar. Uma grande circulação visível, algumas gangrenas a serem reparadas. Como fazer para desbloquear. Trabalho árduo, braçal. Fluxos sanguíneos. Qual a espessura da mangueira, qual a bomba necessária, nossos pulmões são suficientes? Como são as ligações? Alimento que chega para todo o corpo.

Materiais: mangueiras, tubos, baldes, águas, conta-gotas. A água presente em diversas formas, no vapor, na xícara de chá, potinho da manicure, sob os pés.

A última gota – de ar.

ENCONTRO – NOVAS FORMAS

formas de existência , partes que se ligam, uma parte de mim e outra de você.

Descrição do que é sentir, formas de nomear. Como descrever. Pé conversa com cabeça. Dedo com cotovelo . Tudo isso ainda é você?

ENCONTRO 

Elisete Jeremias e a direção de cena se apresentam, movimentação e cuidados propostos por ela. Aparecer e desaparecer. Compor.

VIAGEM – SÌTIO MINAS

Início da Pandemia, nos recolhemos por um mês em Minas Gerais.

Rotina de Trabalho: Aikidô, composição e práticas musicais, lapidação das cenas , novos experimentos. Cachoeira, caminhada, mergulho, refeição, sonhos, livros.

A peça não vai estrear tão cedo…

OUTUBRO DE 2020

Voltamos a Minas para filmagem da peça. 

SARAH LESSA 

Diário das atrizes

Revisito os escritos do processo

 

Nota número um:

“O arriscar-se é que torna a vida interessante”

Nota número dois:

“O capitalismo transforma o direito em privilégio”

Nota número três:

“Deixe o mundo entrar em você”

 

Chovia muito no dia em que eu e a Lu conversávamos sobre a vida, recém chegadas em São Paulo, ela com um copo de cerveja na mão:

“Sarinha, eu li um livro legal, vamos fazer alguma coisa…Teoria king kong”. Pensei na Lau. Eu ri.

Acho que eu ouvia “vamos fazer alguma coisa” pela milésima vez. Eu fiquei (MUITO) animada porque ouvir essa frase vinda da Lu era como ganhar na loteria num dia chuvoso. O destino me dando a chance de crescer e aprender muitas coisas ao lado dela. Nós rimos, eu fui atrás do livro, depois veio a Lau, pra minha sorte, é com ela que eu divido todas as aflições e delícias de um processo difícil mas muito engrandecedor.

No dia seguinte Georgette apareceu com o livro. Mais uns milhões na loteria, ela estaria com a gente.

Ganhei muitas coisas.

Perdi outras.

Listei privilégios.

Estudei o fundo do mar.

Nossa condição como mulher branca e privilegiada.

O que a história fez e faz das mulheres.

A estrutura que massacra especialmente nossas irmãs negras.

Aprisionamento dos padrões.

Quebra de estrutura.

Um corpo que se expande jamais volta ao seu tamanho inicial.

Afundo

Procurando o ar.

Não quero me comparar. Cada uma de nós tem uma história, um corpo, uma existência. Me comparo a essas mulheres que estão comigo, minhas parceiras, mesmo sabendo das nossas individualidades. Me comparo. Esqueço por muitos instantes que cada ser é bonito por sua individualidade. Sou um peixe estranho do fundo do mar. Gosto do escuro, da solidão, falo baixo.

Sozinha, no fundo, escondida. Uma caramuja. Mãos me puxam pro centro. Lu e Lau estão comigo. Me ensinam. Abrem o jogo. A escuta.

Elas seguram a minha mão.

É preciso ter coragem pra tomar a frente, pra ocupar algum lugar.

Elaboro um texto sobre o fundo do mar.

Civilizações submersas, maravilhas e possibilidades de seres que moram no fundo, na zona abissal. Criaturas que sobrevivem em condições extremamente difíceis, com centenas de barras de pressão, pequenas quantidades de oxigénio, pouco alimento, sem luz solar e frio constante e extremo.

Fêmeas.

Três mulheres brancas. O que isso significa?

Menos de cinco por cento dos oceanos já foi explorado.

As ostras mudam de sexo dependendo do que é vantajoso pro acasalamento.

Na época da reprodução, a fêmea do polvo libera um hormônio na água para atrair o macho. Após o acasalamento, a fêmea põe os ovos, cerca de 150 mil, no interior de uma caverna, e fica cuidando para que eles não sejam predados. Durante o tempo em que a fêmea fica vigiando seus ovos, ela não se alimenta e, por esse motivo, morre logo depois que os filhotes saem dos ovos.

Daqui a três décadas, haverá mais plástico descartável do que peixes nos oceanos.

A palavra de uma mulher que acusa um homem de estupro é antes de tudo uma palavra duvidosa.

Quando uma fêmea de um grupo de peixe palhaço morre, o dominante se transforma em fêmea para substituí-la.

Como nosso masculino ou feminino está atrelado aos estereótipos? O que eu penso do feminino? Como é o masculino e pelo que eu me interesso?

Quais são os gestos que eu reproduzo para me sentir mais feminina?

Quais são os gestos masculinos?

“Feminino é mais tenso e mais pra fora ( como e quero que eles sejam e como quero ser vista).

Masculino é mais relaxado/ tranquilo/ menos julgamento do outro.

Meu peixe é totalmente relaxado geralmente com a língua pra fora.”

É possível me relacionar com masculino e feminino sem ser através de estereótipos?

Nota número 4

Meu computador corrige feminino para feminine e para masculine também.

Isso que você é já não é mais possível. Sai dai. Sai.

Quais as palavras que não são ditas neste trabalho?

Quais são as perguntas? Não precisamos ter todas as respostas. A criação também é sobre NÃO saber.

Respiro

Como essa história começa?

Danço o seco. Quanto tempo dura cada minuto?

Andar pra onde?

O que é ser imutável, imóvel ser madeira?

O fogo lá detrás me assombra.

Eu sinto quente.

A fumaça arde meus olhos.

Estou aqui

No espaço do poro entre uma coisa e outra.

O caminho da pele.

Não tenho medo. Era isso.

Era pra ser assim.

Fogo fumaça.

Eu já estava dura.

Eu já existia dura.

Mas a minha palavra cheia minha palavra

Continha pólvora.

Todos os seres vivos precisam de água pra sobreviver.

80 por cento das doenças do mundo são resultado de ingestão de água contaminada.

75 por cento do nosso corpo é água.

10 por cento das espécies de peixe trocam de sexo pelo menos uma vez na vida.

O cavalo marinho é o único animal cujo macho é quem dá a luz.

Vocês aceitam uma água?

Diário das atrizes